sexta-feira, 9 de julho de 2021

A última visão


Lutar, buscar e não ceder: os astros
há muito nos deixaram, companheiros.
Que este deserto sem faróis nem rastros
abra-se a nós, os últimos — Pioneiros!

Dos náufragos veleiros sobre os lastros,
pendem mastros e velas derradeiros.
Força! Não só de velas e de mastros,
mas de fúria se fazem os veleiros.

Range o timão, amotinam-se os remos,
e um súbito facho rasga a tormenta
num corredor de espumas para o nada...

Cantem, flores de breu, e dançaremos
se o sopro que seu vórtice alimenta
refresca nossa fronte encarquilhada!

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Outro soneto de Olavo Bilac para o inglês!


Há quanto tempo não postava uma tradução aqui!

segunda-feira, 6 de abril de 2020


Não havia nada de diferente:
um bar como qualquer outro em qualquer
rua — o de sempre. E por que, de repente,
nada parece o mesmo, nem sequer

a cerveja, que é a mesma, ou a conversa
despreocupada — e talvez só por isso
indispensável — à noite, dispersa
entre tantas noites sem compromisso

com as horas, com o frio a encrispar
os dedos que se entretecem, entregues
ao que é mais efêmero, ao canto — sim,

acima de tudo ao canto? Sem par
agora, essa noite qualquer, em mim
como em ti, meu amor, ainda que o negues.

terça-feira, 24 de março de 2020


Um pássaro translúcido se esfola
no asfalto de meus olhos arredios,
e cede o azul motor à contramola
da poça em que, por me esquivar, meti-os.

Não basta erguer a vista, nem consola
rememorar a ossada dos estios:
como extrair do pássaro a gaiola?
Como forjar os seus metais bravios?

Como, entre fráguas, infundir-lhe o bálsamo
devido? Como, se, a negar-me o voo
e a luta, a muda voz dos astros alça,

moroso, aos céus — E o céu, morosamente,
crava nos olhos sob os quais sangrou
uma rosa tardia, indiferente?

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Primavera

Ventos de luz e sal na ressequida fronte
onde ela aporta seu olhar: cresta-lhe os músculos
a morna agitação de todos os crepúsculos,
a harmonia final transfeita no horizonte.

Nem a busco entender, nem peço que me conte
o que Vésper lhe diz e aflora nos minúsculos
feixes a se esparzir, tingindo o lusco-fusco: Luz
salina, ardente espuma, em seu olhar desponte,

e não deixe, uma vez vazado o oceano mudo
sobre a concha das mãos salpicadas de areia,
nada além da ilusão de estarmos e de sermos —

Cismo. E ela me beija e, rindo disso tudo,
observa como o sol, nesse ângulo, clareia
a primavera morta em nossos lábios ermos.

sábado, 9 de março de 2019

Elizabeth Browning à Portuguesa


Depois de ler o brilhante ensaio do Elaphar sobre a poeta vitoriana, saí coçando para mexer em alguns versos já há muito na pasta de poemas por traduzir. Disso, segue esta versão mais ou menos fiel do primeiro dos "Sonnets from the Portuguese".


I

I thought once how Theocritus had sung
Of the sweet years, the dear and wished-for years,
Who each one in a gracious hand appears
To bear a gift for mortals, old or young:
And, as I mused it in its antique tongue,
I saw, in gradual vision through my tears,
The sweet, sad years, the melancholy years,
Those of my own life, who by turns had flung
A shadow across me. Straightway I was ’ware,
So weeping, how a mystic Shape did move
Behind me, and drew me backward by the hair;
And a voice said in mastery, while I strove,—
“Guess now who holds thee?”—“Death,” I said. But, there,
The silver answer rang,—“Not Death, but Love.”



1

Pensando em como Teócrito cantara
Os anos, doces e anelados anos,
Que vêm, afáveis mãos, dar aos humanos
Velhos ou jovens sua joia rara:
Dessa língua que há muito se calara,
Vi emergir em meio a desenganos
Os doces anos, merencórios anos
De minha vida, onde uma sombra amara
Se projetou. Em prantos percebi
Mística Forma atrás de mim se pôr,
Pelas mechas puxar-me para si;
Em tom de mando ouvi, com estupor:
"Quem te possui?", "A Morte", respondi,
E a argêntea voz ressoou: "Não Morte — Amor."

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Soneto 130 de Shakespeare.



CXXX

My mistress’ eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips’ red;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.

I have seen roses damasked, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.

I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound;
I grant I never saw a goddess go;
My mistress when she walks treads on the ground.

And yet, by heaven, I think my love as rare
As any she belied with false compare.



130

São seus olhos da luz do sol alheios;
Seus lábios, que o coral bem menos rubros;
Se alva é a neve, pardos são seus seios;
Se fios cabelos, negros fios descubro-os;

Vejo alvas, rubras, damascadas rosas,
Mas rosa alguma em sua tez se acende;
Certas fragrâncias são mais deleitosas
Que o hálito que dela se desprende;

Amo ouvi-la falar, porém bem sei
Mais aprazível ser qualquer canção;
Deusa que andasse, nunca divisei;
Ela, ao passar, detém os pés no chão.

E, no entanto, por Deus, acho-a tão rara
Quanto aquela que a enganos se compara.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Em ocasião do dia dos pais


Quando a primeira vez o teu caderno
De sonetos abri, meu pai amado,
Pude ouvir o teu canto levantado
Como catorze braços para o Eterno;

E, outrora tão lacônico e sagrado
(Pois na quietude dá-se o amor paterno),
Tão mais humano fez-se, tão mais terno,
O homem que o lia, tímido, ao meu lado.

Tu me ensinaste o verso e, nele, a vida,
A paixão sufocada e a prece muda,
A acre esperança e a lágrima contida.

Tu me tornaste, pai, quem sou agora:
Esta voz que em silêncio se desnuda
Para aplacar um coração que chora.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Um soneto de Théophile Gautier


sexta-feira, 18 de maio de 2018

Um soneto de Olavo Bilac para o inglês.




Exercitando a via contrária da tradução, verti o soneto "Língua Portuguesa", de Olavo Bilac, para o inglês. Uma boa maneira de aguçar a sensibilidade ao outro idioma, na maioria das vezes de partida e não de chegada. 
Traduzi os decassílabos em pentâmetros iâmbicos, mantendo um esquema de rimas próximo do original, embora, infelizmente, não tenha conseguido preservar as mesmas rimas nos dois quartetos. Ainda me sinto um brutamontes manejando o inglês, mas de um modo geral o resultado me agradou, e espero que também ao leitor mais sensível às nuances da língua inglesa. 



LÍNGUA PORTUGUESA

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


***

Last flower of the Latium, wild and sweet,
Thou art, at once, both sepulture and splendour:
Hidden in slag, a gold of native grandeur,
Which crude mines veil among the muddy grit...

I love thee as thou art: obscure, unknown,
O tuba of roaring clanks, O lyre warm,
Who hast the hiss and rumble of the storm,
And so the lull of tender things long gone!

I love thy wild luxuriance and thy scent
Of oceans deep and uninvaded isles!
I love thee, Tongue of bruteness and lament,

In which I heard from mother's lips: "my son!",
In which Camões once mourned, through dark exiles,
His wretched fate and heart that never sung!

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

"Os Gatos", de Charles Baudelaire.



LES CHATS

Les amoureux fervents et les savants austères
Aiment également, dans leur mûre saison,
Les chats puissants et doux, orgueil de la maison,
Qui comme eux sont frileux et comme eux sédentaires.

Amis de la science et de la volupté,
Ils cherchent le silence et l'horreur des ténèbres;
L'Erèbe les eût pris pour ses coursiers funèbres,
S'ils pouvaient au servage incliner leur fierté.

Ils prennent en songeant les nobles attitudes
Des grands sphinx allongés au fond des solitudes,
Qui semblent s'endormir dans un rêve sans fin;

Leurs reins féconds sont pleins d'étincelles magiques,
Et des parcelles d'or, ainsi qu'un sable fin,
Etoilent vaguement leurs prunelles mystiques.



OS GATOS

Os férvidos de amor e os sábios rigorosos,
Chegada a madureza, hão de igualmente amar
Os gatos, fera e doce ostentação do lar,
Que, tal qual, sentem frio e são, tal qual, ociosos.

Amigos da ciência e irmãos da languidez,
Perscrutam o silêncio e os noturnos mistérios;
O Érebo os suporia os seus corcéis funéreos,
Pudera a obediência impor-lhes à altivez.

Seu meditar profundo o nobre aspecto cinge
De alguma solitária e majestosa esfinge
Que repousa embalada em um sonho imortal;

Transbordam de seus rins fantásticas cintilas,
E, astros ou grãos de areia, ouro de um primor tal
Vagamente reluz nas místicas pupilas.



terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Soneto LV: o "Exegi Monumentum" de Shakespeare.



segunda-feira, 15 de maio de 2017

Pietà

("Madonna dos Lírios" e "Pieta", Bouguereau)


À minha mãe.

Morre Cristo. De sangue e lágrimas coberto,
Dorme sobre o Calvário à nona hora do dia;
Por três cravos suspensa, a Carne que tremia
Cessa o tremor enfim, e o Espírito é liberto.

"Por que me abandonaste, ó Pai? Por quê?", gemia
Pouco antes de expirar, havendo o seio aberto
Aos vagalhões do oceano e à aridez do deserto.
Sem resposta do Céu, chorou. E eis que Maria,

Ao ver o Cristo em sangue e lágrimas desfeito,
De pronto suplicou: "Senhor, dá-me essa cruz;
Dá que eu - Não Ele! - arraste o mundo junto ao peito!"

E entre o escárnio da terra e o divinal exílio,
Clamou em desalento o nome de Jesus,
Que, antes de Redentor e Deus, era seu filho.



05 / 2017

09 / 06 / 2017: Acabo de descobrir que meu soneto "Pietà" foi lido e publicado por ninguém menos que Roberto Mallet. Muito feliz com a surpresa e com a atenção ao poema. A leitura está belíssima.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Porque descobriram uma estátua de Ramsés II na favela do Cairo, e isso é um prato cheio para a trolldução



Fonte: UOL notícias

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Um soneto de Lovecraft a Poe.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Um soneto de Oscar Wilde.

(Sim, ele escrevia sonetos também.)

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Epitáfio a M...G...P...S...*



Lendo esse verso que seu livro encerra
Qual se encerrasse um rouco e áspero grito,
Ouço, poeta, o fenecer contrito
De um coração que bate sob a terra.

Acabou-se o licor, é finda a guerra,
E ora a garrafa, como o verso escrito,
Parece, sob a luz de um astro que erra,
Engarrafar um pouco do infinito.

Desceu-lhe o Ocaso como aurora fosse:
Do esgar dos homens rudes protegida
E alheia à compaixão dos homens falsos,

Pode sonhar, enfim, Ela, que trouxe
Num copo de aguardente o elã da vida
E o remorso de Deus nos pés descalços.



06 / 2016
__________
*Maria Gabriela Pereira dos Santos (1923-1996) viveu em Itajubá, no sul de Minas Gerais. Seu único livro, "Versos dentro da noite", composto em sua maioria por sonetos forjados como poucos conterrâneos o souberam e o saberiam fazer, segue se perdendo pelos sebos da cidade. Após lê-lo, senti-me na obrigação de pagar a experiência com um igualmente soneto, e daí o Epitáfio. 

(...) 
Não chores, Mãe querida, se eu morrer
do vício inconformável de beber, 
da consequência infame da bebida...

— Saibas, porém, que em muita noite fria,
de remorsos chorei esta agonia:
de ter em tua vida, a minha vida... 

(...) 
Estou pronta, Senhor! Passou meu pesadêlo!...
Tenho as mãos a vagar, nas ondas do cabelo,
Como que a sustentar meu cérebro doente...

... Se esta vida e esta cruz a que me condenaste
não puderam conter-te a ira sôbre um traste,
ampara-me, no fim, para eu morrer contente... 

domingo, 13 de dezembro de 2015

"Ozimândias", de Percy Shelley.




Proponho aqui duas versões do famoso soneto inglês: uma em decassílabos e outra em dodecassílabos, salvo pela inscrição na estátua, que em ambas verti como um dístico à parte da estrutura geral do poema.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Placebo


Eu vou rimar rimando em rima rica,
Rimar rimando em rima rara eu vou,
Porque rimar em rima rara é pica,
Porque rimar em rima rica é show.

Queres compor? Eu já te dou a dica;
Queres compor? Amigo, te prepara:
Não rimes rima que não seja rica,
Não rimes rima que não seja rara.

Se for soneto, então, rima no embalo,
Pois não rimar é como não ter rima
E não ter rima é como não rimá-lo;

Mas lembra, meu amigo: ou rica, ou rara.
Adoça bem a péssima vindima
Que a falta de sabor não se repara.




09 / 2015

domingo, 13 de setembro de 2015

Um soneto escarrado.


É em noites assim que eu sinto um grande 
desejo de escrever o que não seja 
só palavra, capturar o que adeja 
no espaço oculto entre o que não se expande 
para além do papel e o sem-limite 
de ideais nascituros me encarando; 
mas se este anseio só me surge quando 
não dá para exceder nem mais um bit 
do que a mente suporta, e a coisa emperra, 
que me resta? Tão só fechar os olhos 
à batalha e conferir os espólios 
tendo dado por certo o fim da guerra 
(espólios tais previstos desde o início, 
num misto de catarse e lorem ipsum).



09 / 2015

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