domingo, 28 de junho de 2015

Da trolldução + Soneto 116 de Shakespeare.



Trollduzir um poema é zoá-lo respeitosamente. Preserva-se a ideia geral, assim como a forma original. O que muda é a voz do sujeito, mais descontraído e com menos paciência para cortesia. É recriação; recreação.
Não que traduzir comicamente um poema seja inovador. Nos altos de 1930, nosso Manuel Bandeira já tirava de Joaquim Manoel de Macedo um poema-piada modernista:

Mulher, Irmã, escuta-me: não ames,
Quando a teus pés um homem terno e curvo
jurar amor; chorar pranto de sangue,
Não creias, não, mulher: ele te engana!
as lágrimas são gotas de mentira
E o juramento manto da perfídia.

O poeta de Libertinagem verteu-o assim:

Teresa, se algum sujeito
bancar o sentimental em cima de você
E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde
Se ele chorar
Se ele se ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredita não Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
CAI FORA.

Os dois poemas dizem a mesma coisa: fica longe do sujeito que te flerta, que ele é um cafajeste. Só que Bandeira cuidou de tornar a linguagem do poema mais próxima à oralidade, e a forma à tendência modernista dos versos livres. Trata-se de um diálogo com o poema de origem que possibilita uma nova leitura do mesmo. E assim é a trolldução: não uma piada de mau gosto, tampouco um desrespeito com a obra, mas uma via alternativa de leitura que não a destrua na essência. 


AS QUATRO NORMAS DA TROLLDUÇÃO

I. Manter a ideia do poema: aliás, isso é imprescindível para qualquer tipo de tradução;

II. Preservar ao máximo possível a forma do poema: mesmo número de versos e estrofes; se é um soneto, que continue sendo um soneto; se é rimado, continue sendo rimado;

III. Manter sua melopeia, fanopeia e logopeia na medida do possível:  não se desprezem os recursos sonoros e imagéticos do poema; se a imagem original for sublime demais para uma piada, é permitido procurar imagens correspondentes, assim como aliterações e assonâncias correspondentes às originais; e

IV. Tornar a linguagem atual e cômica: gírias, palavrões, interjeições, regionalismos e erros de concordância são permitidos, desde que o conjunto final se justifique.

 ***

Não é a primeira vez que venho ao blog com uma recreação; há uma para o Soneto 17 de Shakespeare, de quando o conceito de trolldução ainda estava no berço. Para consolidá-lo de vez, trago outro poema do Bardo, originalmente publicado aqui por Matheus Mavericco (aproveitem e deem uma olhada nesse blog lindo de morrer).


CXVI


Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:

O, no! it is an ever-fixed mark,
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.

Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle's compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.

If this be error and upon me proved,
I never writ, nor no man ever loved.



116


Por mim, pode casar a turma toda,
Havendo amor... Que amor não é bobagem:
Não muda a roupa consoante a moda,
Nem brocha se borrar a maquiagem.

Nã-não; é coisa muito bem bolada,
Não treme, e ri na cara do perigo;
Coisa que, ao longe, é linda de danada
E que de perto nem medir consigo.

O Amor não cai na ideia dos bananas
De que a velhice é desamor profundo;
Passam-se os dias, passam-se as semanas,
E ele só cresce — e que se dane o mundo.

Mas se isso for migué e alguém provar,
Nunca fui de escrever e o homem de amar.



06 / 2015