segunda-feira, 29 de junho de 2020

Canção do Exílio (revista & atualizada)


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Em cismar – sozinho – à noite –
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Não permita Deus que eu morra
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sexta-feira, 15 de maio de 2020

Variação sobre tema de Frost


Poesia é o que se traduz na perda.

segunda-feira, 6 de abril de 2020


Não havia nada de diferente:
um bar como qualquer outro em qualquer
rua — o de sempre. E por que, de repente,
nada parece o mesmo, nem sequer

a cerveja, que é a mesma, ou a conversa
despreocupada — e talvez só por isso
indispensável — à noite, dispersa
entre tantas noites sem compromisso

com as horas, com o frio a encrispar
os dedos que se entretecem, entregues
ao que é mais efêmero, ao canto — sim,

acima de tudo ao canto? Sem par
agora, essa noite qualquer, em mim
como em ti, meu amor, ainda que o negues.

terça-feira, 24 de março de 2020


Um pássaro translúcido se esfola
no asfalto de meus olhos arredios,
e cede o azul motor à contramola
da poça em que, por me esquivar, meti-os.

Não basta erguer a vista, nem consola
rememorar a ossada dos estios:
como extrair do pássaro a gaiola?
Como forjar os seus metais bravios?

Como, entre fráguas, infundir-lhe o bálsamo
devido? Como, se, a negar-me o voo
e a luta, a muda voz dos astros alça,

moroso, aos céus — E o céu, morosamente,
crava nos olhos sob os quais sangrou
uma rosa tardia, indiferente?

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Quaresmeira


O vento derrama
sobre a coroa-de-cristo
pétalas lilases.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

24 de dezembro


A inocência dormiu
de olhos abertos

Em vão tentamos
amparar seu vulto

Nem tudo está perdido:
ainda há o medo

E alguma inquieta paz
nos punhos

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Primavera

Ventos de luz e sal na ressequida fronte
onde ela aporta seu olhar: cresta-lhe os músculos
a morna agitação de todos os crepúsculos,
a harmonia final transfeita no horizonte.

Nem a busco entender, nem peço que me conte
o que Vésper lhe diz e aflora nos minúsculos
feixes a se esparzir, tingindo o lusco-fusco: Luz
salina, ardente espuma, em seu olhar desponte,

e não deixe, uma vez vazado o oceano mudo
sobre a concha das mãos salpicadas de areia,
nada além da ilusão de estarmos e de sermos —

Cismo. E ela me beija e, rindo disso tudo,
observa como o sol, nesse ângulo, clareia
a primavera morta em nossos lábios ermos.